Complexo de Inferioridade
O termo Complexo de Inferioridade foi criado por Alfred Adler, primeiro seguidor de Freud, que depois se desligou dele por discordar de algumas idéias do pioneiro da Psicanálise. Ele acreditava que este sentimento era inerente ao homem, e nascia do meio em que a criança crescia. Dependente dos pais nos primeiros momentos de seu desenvolvimento, aparentemente fraca e, portanto, incapaz ainda de realizar determinados feitos, ela tinha diante de si o ambiente ideal para o surgimento deste complexo. Para equilibrar este distúrbio, o ser humano gera então sentimentos de superioridade, tentando obter algumas vantagens psíquicas.
Essa pretensa inferioridade que alguns sentem pode ser imaginária, a partir do momento em que a criança se torna consciente de que não é o único alvo de atenção e de amor da família. Neste momento ela sente ciúmes e raiva. Segundo Adler, é fundamental na análise deste complexo saber se o filho é o mais velho, o mais novo ou o do meio. Destas condições nasce a competição que futuramente se desenvolverá entre os irmãos. De qualquer forma, este sentimento é inconsciente, e é compensado por atitudes de uma superioridade compensatória, para esconder estas emoções perturbadoras. O que diferencia uma percepção normal de inferioridade, que tem como função impelir o homem para sua evolução particular, o complexo de inferioridade se constitui em um estado emocional de profundo desânimo, que muitas vezes conduz o indivíduo a uma fuga da realidade, reforçada pelas fantasias de superioridade.
O íntimo do ser humano é povoado de lutas pelo poder, sentimentos inferiores e competições. É assim que o homem busca a atenção de seus companheiros, tenta se destacar no meio do todo e se defender de um meio agressivo e desconhecido. Estes processos contribuem para o desenvolvimento da personalidade do indivíduo. Os valores podem, a partir de então, ganhar contornos negativos, com a intensificação da concorrência e da agressividade, ou positivos, com o crescimento da solidariedade entre as pessoas, e a consciência cada vez mais clara de que perder uma disputa não é humilhante. Como geralmente, nestes momentos de derrota, não há ninguém ao nosso lado para nos mostrar esta face afirmativa da realidade, é quase inevitável a queda no Complexo de Inferioridade.
É essencial plantar na criança sementes de auto-estima e de fortaleza moral, que lhe permitam resistir aos pontos de vista dos outros e às provações do caminho que o Ego enfrenta. Os pais precisam criar em torno do filho mecanismos que desenvolvam, ao longo do tempo, uma aura de segurança para protegê-lo das influências externas, e que na infância supram seus sentimentos iniciais de fragilidade, carência de proteção e dependência, vivências que dão origem ao que Adler chama de complexo de inferioridade primário. Esta emoção pode se amplificar se a família adquirir o hábito de compará-lo aos irmãos ou a outras pessoas adultas.
Já o sentimento de inferioridade secundário está associado ao adulto, que tenta alcançar uma meta que reside no inconsciente ou um pretenso êxito pessoal para suprir seu complexo de inferioridade. O espaço que separa o sujeito da realização destes objetivos causa sentimentos de frustração e incita emoções negativas e inferiores. O complexo de inferioridade está, portanto, ligado ao meio em que a criança se desenvolve, ao comportamento dos pais com relação a ela – estes devem evitar discursos negativos e depreciativos, bem como o costume de destacar os deslizes dos filhos -, à presença de determinados defeitos físicos, que provocam muitas vezes zombarias e ironias alheias, a restrições mentais deste ser e também a níveis sociais desvantajosos.
Percebe-se, pelos fatores acima, que o maior algoz e adversário da nossa personalidade hoje é a opinião do outro, que pode provocar em nossas emoções distúrbios os mais variados, bem como patologias psíquicas sérias. Neste momento de ansiedade extrema, é comum inventarmos em nosso interior um super-herói, através do qual podemos atuar emocional e socialmente, com prejuízos atenuados pela nossa criação mental. Afinal, o ser humano não suporta a marginalização, a rejeição social e a solidão.
Dicas para para sair desse complexo inferioridade:
1 - Evite as comparações. Ficar se comparando com quem quer que seja não o fará se sentir melhor, pois as pessoas são diferentes, possuem necessidades, desejos e históricos de vidas diferentes.
2 - Compreenda seu histórico de vida e a origem de seu sentimento de inferioridade. Por qual motivo se sente inferior? Não desista, compreenda suas dificuldades e procure enfrentar cada uma delas.
3 - Enfrente o medo. É importante lidar e enfrentar o medo que as pessoas ou situações provocam e compreender que a percepção de si mesmo está baseada na conseqüência de fatos que já passaram. Você não pode mudar seu passado, mas pode mudar seu presente.
4 - Reconheça seu valor. Perceba que seu valor enquanto pessoa não pode e nem deve ser baseado na maneira como foi tratado, ainda que isso tenha durado toda sua vida. Não permita mais ser desrespeitado ou maltratado.
5 - Identifique suas necessidades. O que você espera receber dos outros pode ser aquilo que não recebeu quando criança de seus pais. Não espere receber dos outros o que só você mesmo pode se dar.
6 - O que você deseja receber na relação afetiva? Muitas vezes os conflitos gerados no relacionamento têm origem em seu histórico de vida.
7 - Observe e procure compreender cada um de seus sentimentos. Perceba quando sentir inveja, ciúmes, necessidade de poder ou superioridade. Esses sentimentos podem estar ocultando e compensando um sentimento de inferioridade.
8 - Aprenda com os erros e não fique se punindo por ter errado, nem se acomode nas situações. Mude o que deseja.
9 - Valorize sempre suas conquistas! Pare de supervalorizar o que o outro tem ou faz e desvalorizar as próprias conquistas.
10 - Faça psicoterapia. O auto-conhecimento obtido através do processo da psicoterapia poderá fazer com que reconheça seus reais valores e liberte-se do complexo de inferioridade que acorrenta e aprisiona.
Alfred Adler
Bem vindos
Psicanálise & Educação
Andrea Costa
Contatos:
fone: 2949 1194/ 8708 0788
Consultório I
Pça. Lourenço de Bellis,80 - Vila Sabrina
Academia Danubio Azul
Consultório II
Av.Dummont Villares, 1859 Sl.2
Metro Parada Inglesa
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quarta-feira, 30 de junho de 2010
Disgrafia -
A disgrafia é considerada uma dificuldade ao nível dos processos de escrita. As causas das dificuldades na aprendizagem da escrita não podem ser devidas a défice cognitivo, a razões socio-culturais ou a ensino deficiente. Podem existir dificuldades no grafismo ou desenho das letras, na ortografia ou ordenação correcta das letras que constituem a palavra, na correcção gramatical e pontuação, ou na organização e elaboração de textos.
Como se manifesta:
- diferença entre a capacidade de expressão oral e escrita;
- pontuação inexistente ou errática, erros frequentes de ortografia com omissão ou troca de letras;
- elegibilidade da escrita;
- espaços inconstantes entre letras e palavras;
- posição anómala ou força excessiva das mãos e dedos;
- atenção excessiva aos movimentos da escrita que é acompanhada por leitura audível à medida que se vai escrevendo, como que reforçada pela informação oral;
- inconsistência na escrita com mistura de maiúsculas e minúsculas, letra de imprensa e manuscrita;
- cópia lenta ainda que correcta;
- dificuldade em colocar os pensamentos em papel.
Como se manifesta:
- diferença entre a capacidade de expressão oral e escrita;
- pontuação inexistente ou errática, erros frequentes de ortografia com omissão ou troca de letras;
- elegibilidade da escrita;
- espaços inconstantes entre letras e palavras;
- posição anómala ou força excessiva das mãos e dedos;
- atenção excessiva aos movimentos da escrita que é acompanhada por leitura audível à medida que se vai escrevendo, como que reforçada pela informação oral;
- inconsistência na escrita com mistura de maiúsculas e minúsculas, letra de imprensa e manuscrita;
- cópia lenta ainda que correcta;
- dificuldade em colocar os pensamentos em papel.
(Ana Bessa - educadora)
quarta-feira, 23 de junho de 2010
Lacan com e sem Derrida?
"Fazer Psicanálise no século XXI requer atenção aos novos desafios do pensar e fazer. Em boa tradução, o livro de René Major nos provoca insistentemente e de modo arguto."
(Chaim Samuel Katz Psicanalista)
Ágora: Estudos em Teoria Psicanalítica
Lacan com e sem Derrida?
Lacan com Derrida. Análise desistencial. René Major. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 1992, 252p.
René Major, psicanalista de origem canadense, é bem conhecido na França por suas lutas pela democratização das instituições psicanalíticas, bem como pelo cotejamento das teorias psicanalíticas com o pensamento filosófico. Em 1973 (até 1983), é o grande articulador do grupo Confrontations, que discutiu as diferentes tendências francesas na psicanálise.
Quando encontra o filósofo Derrida, começam uma colaboração proveitosa, que dura até hoje. Assim é que Major foi o grande animador dos Estados Gerais da Psicanálise, realizados em Paris (2000) e Derrida seu principal conferencista (quando pronunciou interessante elaboração sobre a crueldade). Estiveram juntos no Rio de Janeiro, em 2001, realizando um frutífero workshop para cerca de 500 participantes.
Este livro é uma coletânea de conferências; uma confrontação entre os pensamentos de Lacan e Derrida. Major é sabidamente derridiano e, uma das conferências ("Desde Lacan"), é dedicada a pensar as relações do nome próprio com os conceitos, deveria ter um título mais extenso: Desde Lacan: existe um psicanálise 'derridiana'? Mas foi censurada em sua denominação. Tais censuras pontuais são velhas conhecidas da psicanálise, nas suas lutas permanentes de poder e interesses. Depois da obra de Foucault, além de seus mecanismos estabelecidos por Freud, é possível ignorar que a censura também é uma relação de poder?
Lacan foi o grande pensador da psicanálise francesa do século XX. A partir de alguns novos instrumentos dos pensares contemporâneos (Antropologia, Lingüística, Topologia e, indiscutivelmente, as filosofias de Hegel, Kojève e Heidegger), ele elaborou uma série de densas questões para a psicanálise, com o mote "retorno a Freud". Para Lacan, o psiquismo inconsciente se estrutura como linguagem. A Linguagem se estabelece à moda de Saussure, ou seja, como conjunto de significantes e significados, de modo uno e indivisível, pois determinados em união (reunião diria Heidegger, Versammlung). Os significantes são letras indivisíveis e suas diferenças se marcam por sua inscrição numa cadeia unitária (de significantes), único lugar no qual se distinguem. Assim sendo, é preciso que o significante (pois se trata de UM) se destitua de suas características sensíveis, pois ele só existe a partir do Outro da linguagem e só se relaciona com outros significantes.
O que organiza tal Outro é um centro, que contém ou deveria conter sua Verdade Única. Lacan postula que tal centro é A Falta e que os indivíduos só se constituem como sujeitos a partir de sua determinação. Ou seja, o sujeito está remetido ao centro mas ele não o tem; os sujeitos são devedores permanentes da Falta (a ela assujeitados) que os constitui.
Quanto às representações e idéias, as que não se reconhecem em tal centramento simbólico constituído pela Falta, são imaginárias. Ser simbolicamente é saber (e por aí temos grave questão: como seria tal saber inconsciente?) de sua constituição ec-cêntrica, pois a cadeia dos significantes insiste sobre sua própria organização. Ao mesmo tempo, sendo a Linguagem e sendo por ela pensado, o Simbólico reconhece a Falta que constitui as subjetividades, mas que lhes é exterior: tal seria a Lei de O Desejo.
Portanto, a letra só pode ter caráter unitário, e sua Lei ordenadora é o retorno à cadeia dos significantes, único lugar no qual ela faz sentido. O sujeito depende da letra, que é seu "elementar". Para Lacan, a letra sempre chega à sua destinação, porque os significantes têm uma Lei única (e, consequentemente, uma única memória, a posteriori, nachträglich) de sua constituição. Na obra lacaniana, a letra retorna sempre e tem um único destino, determinado pela cadeia significante.
É claro que um criador como Lacan não é dogmático. Ao longo de seu pensar vamos aprendendo acontecimentos desejantes que não se determinam unicamente pelo significante. Num exemplo importante, a noção de gozo, que diz respeito à Unheimlichkeit, ao não-familiar/familiar, doméstico/indomesticado, aí onde o sujeito não mais se remete ao Outro que o constitui desejantemente, mas imediatamente à coisa faltante (das Ding). Nesta extimidade (Lacan) se reúnem o mais estranho e ao mesmo tempo o mais íntimo; onde a cadeia significante não dá mais conta da subjetividade e vigora o mais elevado gozo. No gozo, há uma insistência de recusa do Nome do Pai, que é o que articula a cadeia significante e O Desejo.
Já para Derrida, a letra tem caráter duplo. Não há interpretação única, pois as letras seguem vias distintas (como Major mostra, ao reler "A carta roubada, de Poe). Cada interpretação depende da cena onde se situa e, portanto, inexiste unidade da letra. Derrida dá primazia à escritura e não à fala. A fala se remete à uma metafísica da presença, enquanto ele toma a memória (de acordo com o Freud da "Lousa mágica") como Escritura. A Escritura não é um derivado gráfico da escrita vulgar, mas aquilo que permite articular fala e escrita. A fala diz unicamente um dos registros, não podendo simultaneamente expressar seu duplo; enquanto a escrita vulgar (desde Platão) pretende traduzir as falas como signos. Derrida mostra como a letra se marca pela diferença entre os vários lugares e não há privilégio de uma idealidade (como o Outro e o Desejo que ele acarreta), que funcionaria como lei única e unitária de um suposto conjunto unitário de letras. A presença não se basta para sua afirmação, pois ela requer sempre seu duplo; a presença é apenas uma das "manifestações", um dos fenômenos (Erscheinungen) e não articula todo o campo da Escritura (não há "todo" na Escritura: ela é por-vir, a venir).
Daí a importância da Psicanálise para Derrida. Recusando o Um e também o relativismo, ele preconiza um processo para o saber desconstrucionista, a aná-lysis. Processo que vai da ligação (aná, em grego) à lysis (refere-se ao que está disperso, sem ligação), que marca a impossibilidade da união permanente e única. Donde sua conceptualização de Différance, que funciona como recusa de um começo, de uma Falta absoluta, cuja origem devesse ser investigada como um centro determinante. Derrida mostra que letras não são signos mas espaçamentos, pontuações, vazios, ritmos, andamentos, desligamentos, escanções etc.– são solitárias e desinteressadas, em seu regime de lysis. Deste modo, o que importa à Psicanálise (que abandonou a especificidade do corpo e do afeto na obra lacaniana), na elaboração de Derrida inexiste oposição entre sensível e inteligível. A significação não tem origem única e um centro articulador, pois é produto de um complexo jogo de forças, que se altera constantemente. Cada con-junção é tecida e destecida inúmeras vezes: uma letra jamais retorna ao seu lugar de origem, pois tal locus centralizador inexiste.
Para Derrida, não há atividade que não seja cruel, desde que o duplo da reunião é a desunião. Ou seja, a letra se constitui num jogo de forças e por isto não tem caráter unitário, não pode ser re-velada nem retornada a uma cadeia originária (que seria sua Lei).
Mostra René Major que Derrida postula a heterogeneidade do inconsciente e sua não semanticidade e reafirma a inexistência de lugares marcados de onde as letras emanassem e para os quais retornassem necessariamente (p.163). Com isto se restituem os regimes de singularidade inconsciente, "esquecidos" desde Freud. Enquanto Lacan postula o sujeito constituído a partir do Outro e destinado a partir do Desejo, Derrida coloca em questão o sujeito, pois só desistindo da subjetividade é que se pode analisar a cena e, ao mesmo tempo, ficar fora dela. Um tal "desistimento constitutivo" do sujeito (o subtítulo do livro é "Análise Desistencial") nos remete ao melhor da teoria pulsional de Freud, que nos ensina que não se devem distinguir radicalmente regimes simbólicos e imaginários; enquanto Lacan postula a constituição desejante da subjetividade, que é cêntrica e acarreta uma distinção radical entre o imaginário (especular), o simbólico (organizador) e o real (que insiste).
Por último, há que observar a ênfase dada por Derrida à questão da animalidade do "homem", já que, na medida que seu Desconstrucionismo, não distingue corpo e alma nem um corte radical entre animal e humano (ver O animal eu logo sou. A seguir, tradução, Unesp, 2002). Bem como sua insistência nos regimes não familiares, na elaboração do não-calculável, na desconstrução da "identidade estável do pai e da mãe", "especialmente de uma mãe suposta insubstituível", ainda centrais em algumas psicanálises contemporâneas, nestes tempos de invenções de inseminação artificial, clonagem, adoção homossexual, co-parentalidade, doação de óvulos ou espermas etc. Ou nas novas figuras que emergem ou reemergem na contemporaneidade, como a orfandade (ver sua elaboração sobre Antígona, em Glas, 1974) ou a recusa do luto (como a das "Mães da Praça de Maio").
Chaim Samuel Katz Psicanalista; escritor;
doutor em Comunicação pela UFRJ.
(Chaim Samuel Katz Psicanalista)
Ágora: Estudos em Teoria Psicanalítica
Lacan com e sem Derrida?
Lacan com Derrida. Análise desistencial. René Major. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 1992, 252p.
René Major, psicanalista de origem canadense, é bem conhecido na França por suas lutas pela democratização das instituições psicanalíticas, bem como pelo cotejamento das teorias psicanalíticas com o pensamento filosófico. Em 1973 (até 1983), é o grande articulador do grupo Confrontations, que discutiu as diferentes tendências francesas na psicanálise.
Quando encontra o filósofo Derrida, começam uma colaboração proveitosa, que dura até hoje. Assim é que Major foi o grande animador dos Estados Gerais da Psicanálise, realizados em Paris (2000) e Derrida seu principal conferencista (quando pronunciou interessante elaboração sobre a crueldade). Estiveram juntos no Rio de Janeiro, em 2001, realizando um frutífero workshop para cerca de 500 participantes.
Este livro é uma coletânea de conferências; uma confrontação entre os pensamentos de Lacan e Derrida. Major é sabidamente derridiano e, uma das conferências ("Desde Lacan"), é dedicada a pensar as relações do nome próprio com os conceitos, deveria ter um título mais extenso: Desde Lacan: existe um psicanálise 'derridiana'? Mas foi censurada em sua denominação. Tais censuras pontuais são velhas conhecidas da psicanálise, nas suas lutas permanentes de poder e interesses. Depois da obra de Foucault, além de seus mecanismos estabelecidos por Freud, é possível ignorar que a censura também é uma relação de poder?
Lacan foi o grande pensador da psicanálise francesa do século XX. A partir de alguns novos instrumentos dos pensares contemporâneos (Antropologia, Lingüística, Topologia e, indiscutivelmente, as filosofias de Hegel, Kojève e Heidegger), ele elaborou uma série de densas questões para a psicanálise, com o mote "retorno a Freud". Para Lacan, o psiquismo inconsciente se estrutura como linguagem. A Linguagem se estabelece à moda de Saussure, ou seja, como conjunto de significantes e significados, de modo uno e indivisível, pois determinados em união (reunião diria Heidegger, Versammlung). Os significantes são letras indivisíveis e suas diferenças se marcam por sua inscrição numa cadeia unitária (de significantes), único lugar no qual se distinguem. Assim sendo, é preciso que o significante (pois se trata de UM) se destitua de suas características sensíveis, pois ele só existe a partir do Outro da linguagem e só se relaciona com outros significantes.
O que organiza tal Outro é um centro, que contém ou deveria conter sua Verdade Única. Lacan postula que tal centro é A Falta e que os indivíduos só se constituem como sujeitos a partir de sua determinação. Ou seja, o sujeito está remetido ao centro mas ele não o tem; os sujeitos são devedores permanentes da Falta (a ela assujeitados) que os constitui.
Quanto às representações e idéias, as que não se reconhecem em tal centramento simbólico constituído pela Falta, são imaginárias. Ser simbolicamente é saber (e por aí temos grave questão: como seria tal saber inconsciente?) de sua constituição ec-cêntrica, pois a cadeia dos significantes insiste sobre sua própria organização. Ao mesmo tempo, sendo a Linguagem e sendo por ela pensado, o Simbólico reconhece a Falta que constitui as subjetividades, mas que lhes é exterior: tal seria a Lei de O Desejo.
Portanto, a letra só pode ter caráter unitário, e sua Lei ordenadora é o retorno à cadeia dos significantes, único lugar no qual ela faz sentido. O sujeito depende da letra, que é seu "elementar". Para Lacan, a letra sempre chega à sua destinação, porque os significantes têm uma Lei única (e, consequentemente, uma única memória, a posteriori, nachträglich) de sua constituição. Na obra lacaniana, a letra retorna sempre e tem um único destino, determinado pela cadeia significante.
É claro que um criador como Lacan não é dogmático. Ao longo de seu pensar vamos aprendendo acontecimentos desejantes que não se determinam unicamente pelo significante. Num exemplo importante, a noção de gozo, que diz respeito à Unheimlichkeit, ao não-familiar/familiar, doméstico/indomesticado, aí onde o sujeito não mais se remete ao Outro que o constitui desejantemente, mas imediatamente à coisa faltante (das Ding). Nesta extimidade (Lacan) se reúnem o mais estranho e ao mesmo tempo o mais íntimo; onde a cadeia significante não dá mais conta da subjetividade e vigora o mais elevado gozo. No gozo, há uma insistência de recusa do Nome do Pai, que é o que articula a cadeia significante e O Desejo.
Já para Derrida, a letra tem caráter duplo. Não há interpretação única, pois as letras seguem vias distintas (como Major mostra, ao reler "A carta roubada, de Poe). Cada interpretação depende da cena onde se situa e, portanto, inexiste unidade da letra. Derrida dá primazia à escritura e não à fala. A fala se remete à uma metafísica da presença, enquanto ele toma a memória (de acordo com o Freud da "Lousa mágica") como Escritura. A Escritura não é um derivado gráfico da escrita vulgar, mas aquilo que permite articular fala e escrita. A fala diz unicamente um dos registros, não podendo simultaneamente expressar seu duplo; enquanto a escrita vulgar (desde Platão) pretende traduzir as falas como signos. Derrida mostra como a letra se marca pela diferença entre os vários lugares e não há privilégio de uma idealidade (como o Outro e o Desejo que ele acarreta), que funcionaria como lei única e unitária de um suposto conjunto unitário de letras. A presença não se basta para sua afirmação, pois ela requer sempre seu duplo; a presença é apenas uma das "manifestações", um dos fenômenos (Erscheinungen) e não articula todo o campo da Escritura (não há "todo" na Escritura: ela é por-vir, a venir).
Daí a importância da Psicanálise para Derrida. Recusando o Um e também o relativismo, ele preconiza um processo para o saber desconstrucionista, a aná-lysis. Processo que vai da ligação (aná, em grego) à lysis (refere-se ao que está disperso, sem ligação), que marca a impossibilidade da união permanente e única. Donde sua conceptualização de Différance, que funciona como recusa de um começo, de uma Falta absoluta, cuja origem devesse ser investigada como um centro determinante. Derrida mostra que letras não são signos mas espaçamentos, pontuações, vazios, ritmos, andamentos, desligamentos, escanções etc.– são solitárias e desinteressadas, em seu regime de lysis. Deste modo, o que importa à Psicanálise (que abandonou a especificidade do corpo e do afeto na obra lacaniana), na elaboração de Derrida inexiste oposição entre sensível e inteligível. A significação não tem origem única e um centro articulador, pois é produto de um complexo jogo de forças, que se altera constantemente. Cada con-junção é tecida e destecida inúmeras vezes: uma letra jamais retorna ao seu lugar de origem, pois tal locus centralizador inexiste.
Para Derrida, não há atividade que não seja cruel, desde que o duplo da reunião é a desunião. Ou seja, a letra se constitui num jogo de forças e por isto não tem caráter unitário, não pode ser re-velada nem retornada a uma cadeia originária (que seria sua Lei).
Mostra René Major que Derrida postula a heterogeneidade do inconsciente e sua não semanticidade e reafirma a inexistência de lugares marcados de onde as letras emanassem e para os quais retornassem necessariamente (p.163). Com isto se restituem os regimes de singularidade inconsciente, "esquecidos" desde Freud. Enquanto Lacan postula o sujeito constituído a partir do Outro e destinado a partir do Desejo, Derrida coloca em questão o sujeito, pois só desistindo da subjetividade é que se pode analisar a cena e, ao mesmo tempo, ficar fora dela. Um tal "desistimento constitutivo" do sujeito (o subtítulo do livro é "Análise Desistencial") nos remete ao melhor da teoria pulsional de Freud, que nos ensina que não se devem distinguir radicalmente regimes simbólicos e imaginários; enquanto Lacan postula a constituição desejante da subjetividade, que é cêntrica e acarreta uma distinção radical entre o imaginário (especular), o simbólico (organizador) e o real (que insiste).
Por último, há que observar a ênfase dada por Derrida à questão da animalidade do "homem", já que, na medida que seu Desconstrucionismo, não distingue corpo e alma nem um corte radical entre animal e humano (ver O animal eu logo sou. A seguir, tradução, Unesp, 2002). Bem como sua insistência nos regimes não familiares, na elaboração do não-calculável, na desconstrução da "identidade estável do pai e da mãe", "especialmente de uma mãe suposta insubstituível", ainda centrais em algumas psicanálises contemporâneas, nestes tempos de invenções de inseminação artificial, clonagem, adoção homossexual, co-parentalidade, doação de óvulos ou espermas etc. Ou nas novas figuras que emergem ou reemergem na contemporaneidade, como a orfandade (ver sua elaboração sobre Antígona, em Glas, 1974) ou a recusa do luto (como a das "Mães da Praça de Maio").
Chaim Samuel Katz Psicanalista; escritor;
doutor em Comunicação pela UFRJ.
sábado, 19 de junho de 2010
Inteligencia Multifocal
SOMOS ETERNOS APRENDIZES (Augusto Cury)
"Sou um eterno aprendiz que no traçado da história tenta entender quem sou. Sou apenas um caminhante a procura de mim mesmo." - escreveu Augusto Cury em O Vendedor de Sonhos.
Muitas pessoas julgam-se donos da saber só porque têm um curso ou alguma cultura que se destaca da mediania. No meio académico e intelectual existe muita gente desse tipo. São pessoas geralmente vaidosas e muitas vezes arrogantes. A humildade é um atributo que não possuem. E o poder que julgam ter, não têm. Apenas estão iludidos com uma visão de si mesmos que está para lá da realidade concreta e da sua imensa ignorância.
Todos somos desconhecedores de muita coisa. Não há nenhum ser humano que seja capaz de ter acesso a toda a informação e conhecimentos que existe disponível no planeta. Querer arvorar-se em sabichão é o mesmo que estar em bicos de pés para parecer mais alto do que realmente se é. Considerar-se um simples aprendiz é uma atitude mais sensata e inteligente.
"Sou um eterno aprendiz que no traçado da história tenta entender quem sou. Sou apenas um caminhante a procura de mim mesmo." - escreveu Augusto Cury em O Vendedor de Sonhos.
Muitas pessoas julgam-se donos da saber só porque têm um curso ou alguma cultura que se destaca da mediania. No meio académico e intelectual existe muita gente desse tipo. São pessoas geralmente vaidosas e muitas vezes arrogantes. A humildade é um atributo que não possuem. E o poder que julgam ter, não têm. Apenas estão iludidos com uma visão de si mesmos que está para lá da realidade concreta e da sua imensa ignorância.
Todos somos desconhecedores de muita coisa. Não há nenhum ser humano que seja capaz de ter acesso a toda a informação e conhecimentos que existe disponível no planeta. Querer arvorar-se em sabichão é o mesmo que estar em bicos de pés para parecer mais alto do que realmente se é. Considerar-se um simples aprendiz é uma atitude mais sensata e inteligente.
sábado, 12 de junho de 2010
O que provoca o PHDA?
O que provoca o PHDA?
portador de hiperatividade e "deficit" de atenção)
A PHDA tem sido tradicionalmente vista como um problema relacionado com a atenção, decorrente de uma incapacidade do cérebro para filtrar diferentes entradas sensoriais, como por exemplo a visão e a audição.
Pesquisas recentes têm mostrado que crianças com PHDA não têm dificuldade nessa área. Em vez disso, os pesquisadores começam a acreditar que as crianças com PHDA são capazes de inibir as suas respostas motoras impulsivas para a entrada deste tipo (Barkley, 1997, 1998a).
Ainda não está claro quais são as causas directas e imediatas da PHDA, apesar de avanços científicos e tecnológicos no domínio das técnicas de imagem neurológica e genética, fica a promessa de esclarecer esta questão num futuro próximo. A maioria dos investigadores suspeitam que a causa da PHDA é genética ou biológica, apesar de reconhecerem que o ambiente da criança ajuda a determinar comportamentos específicos.
Estudos de imagem realizados durante a última década têm indicado que regiões do cérebro podem funcionar mal em pacientes com PHDA e, portanto, são responsáveis pelos sintomas da doença (Barkley, 1998a). Um estudo de 1996 conduzido nos Institutos Nacionais de Saúde Mental (NIMH) descobriram que o córtex pré-frontal direito (parte do cerebelo) e pelo menos dois dos aglomerados de células nervosas conhecidas colectivamente como os gânglios da base são significativamente menores nas crianças com PHDA (como citado em Barkley, 1998a). Parece que essas áreas do cérebro estão relacionadas com a regulamentação das atenções. A causa dessas áreas do cérebro serem menores para algumas crianças ainda é desconhecida, mas os pesquisadores sugeriram que as mutações em vários genes que estão activos no córtex pré-frontal e gânglios da base podem desempenhar um papel significativo (Barkley, 1998a). Além disso, alguns factores não genéticos têm sido relacionados à PHDA, incluindo o nascimento prematuro, álcool e tabagismo materno, altos níveis de exposição ao chumbo, e os danos neurológicos pré-natal. Embora algumas pessoas afirmem que os aditivos alimentares, o açúcar, o fermento, ou métodos de criação pode levar criança para a PHDA, não há evidências conclusivas que apoiem essas crenças (Barkley, 1998a; Neuwirth, 1994; NIMH, 1999).
Traduzido por Nelson Santos
In: http://www.chadd.org/
A Família da criança com PHDA - Jd da Infancia Portugal
PHDA (perturbação/Portador de hiperactividade e défice de atenção)
A Hiperactividade é uma diminuição ou ausência de controlo no indivíduo. A criança hiperactiva é incapaz de controlar a sua atenção, impulsividade e actividade motora. Não é uma ausência de vontade para o fazer, mas sim uma ausência de controlo que efectivamente traz consequências.
As manifestações comportamentais das crianças com PHDA, englobam sintomas de:
- Actividade excessiva ( inquietação motora, agitação)
- Distracção (dificuldade de concentração, atenção dispersa)
- Impulsividade (tendência a agir sem reflectir)
Estes sintomas são frequentes, evidenciam-se ao longo do desenvolvimento e a sua intensidade ocasiona um défice claramente significativo no desempenho académico e social.
Os sintomas evidenciam-se antes dos 7 anos de idade, têm de estar presentes em 2 ou mais contextos (ex.: casa, escola) e, de acordo com a sua preponderância, podemos ter diferentes tipos de apresentação clínica: predominantemente desatento, predominantemente hiperactivo-impulsivo e de tipo misto.
Os pais queixam-se das dificuldades que têm em lidar com a criança, habitualmente sentem-se angustiados, exaustos, desgastados, fragilizados e impotentes. Verbalizam os esforços que empreendem para modificar as atitudes comportamentais do seu filho, sem conseguirem os seus objectivos, acarretando frequentemente repercussões negativas no relacionamento entre os diferentes elementos do seio familiar.
A incapacidade dos Pais em compreenderem a criança pode, por sua vez, desencadear ou intensificar reacções de agressividade, de hostilidade e de desafio. A relação torna-se pouco gratificante, o que vai aumentar ainda mais as dificuldades relacionais.
Torna-se fundamental a compreensão da patologia da criança, como primeiro passo que antecede a intervenção.
A compreensão do problema, torna os Pais mais capacitados para actuar de uma forma mais adequada.
A Hiperactividade é uma diminuição ou ausência de controlo no indivíduo. A criança hiperactiva é incapaz de controlar a sua atenção, impulsividade e actividade motora. Não é uma ausência de vontade para o fazer, mas sim uma ausência de controlo que efectivamente traz consequências.
As manifestações comportamentais das crianças com PHDA, englobam sintomas de:
- Actividade excessiva ( inquietação motora, agitação)
- Distracção (dificuldade de concentração, atenção dispersa)
- Impulsividade (tendência a agir sem reflectir)
Estes sintomas são frequentes, evidenciam-se ao longo do desenvolvimento e a sua intensidade ocasiona um défice claramente significativo no desempenho académico e social.
Os sintomas evidenciam-se antes dos 7 anos de idade, têm de estar presentes em 2 ou mais contextos (ex.: casa, escola) e, de acordo com a sua preponderância, podemos ter diferentes tipos de apresentação clínica: predominantemente desatento, predominantemente hiperactivo-impulsivo e de tipo misto.
Os pais queixam-se das dificuldades que têm em lidar com a criança, habitualmente sentem-se angustiados, exaustos, desgastados, fragilizados e impotentes. Verbalizam os esforços que empreendem para modificar as atitudes comportamentais do seu filho, sem conseguirem os seus objectivos, acarretando frequentemente repercussões negativas no relacionamento entre os diferentes elementos do seio familiar.
A incapacidade dos Pais em compreenderem a criança pode, por sua vez, desencadear ou intensificar reacções de agressividade, de hostilidade e de desafio. A relação torna-se pouco gratificante, o que vai aumentar ainda mais as dificuldades relacionais.
Torna-se fundamental a compreensão da patologia da criança, como primeiro passo que antecede a intervenção.
A compreensão do problema, torna os Pais mais capacitados para actuar de uma forma mais adequada.
domingo, 6 de junho de 2010
Elsabeth Roudinesco

Vale muito ler e aprender!
Historiadora Elisabeth Roudinesco abre série do Café Filosófico CPFL em Campinas
(Por Victor Costa)
Na última terça-feira, 1 de junho, a cpfl cultura recebeu a historiadora e psicanalista francesa Elisabeth Roudinesco, uma das mais representativas intelectuais contemporâneas. Roudinesco realizou a palestra "Foucault, Deleuze, Derrida: pensamento rebelde e heranças cruzadas", dentro do módulo módulo "Anticlímax das sociedades contemporâneas - Foucault, Deleuze e Derrida frente à crise", de Scarlett Marton.
Na palestra, Roudinesco apontou o ponto convergente de Foucault, Deleuze e Derrida: foram filósofos subversivos porque interdisciplinares. Coadunaram a Filosofia às outras áreas do saber. Foucault apropriou-se da História e mostrou que a loucura é muito mais fenômeno da cultura da normatização, que da clínica psiquiatra. Deleuze vale-se das Artes e estabeleceu novas formas de subjetivação. Aproximou o erudito do prosaico. Nas palavras de Roudinesco, defendeu que "a verdade está nas ruas". Derrida, por meio da História e da Arte, desconstruiu a ideia negativa da morte. O luto é o resgate da herança, a qual permanece para além da morte de seu portador, na memória de quem vive.
Perguntada sobre a herança que o pensamento rebelde deixa para enfrentarmos as crises contemporâneas, Roudinesco enfatizou a importância estratégica da pluralidade intelectual. A prática da crítica converte-se em um pensamento aberto e orgânico. Outro legado é o paradoxo do engajamento. Foucault, Deleuze e Derrida não foram politicamente engajados como boa parte de seus contemporâneos. Porém, não por isso deixaram de atacar com severidade os encalços sociais. Não é preciso a rigor ser politicamente engajado para dar-se conta e combater, segundo Roudinesco, "o pequeno fascismo ordinário do cotidiano - que nos coloca em dominação sem que percebamos".
COMPREENDENDO A PSICANALISE
Você está em análise?Por Jorge Forbes
Você está em análise? Etâ perguntinha difícil de responder; vejamos. Primeiro, não basta você dizer que vai a um psicanalista bem titulado, tantas vezes por semana. O carteiro do analista também vai lá com frequência e nem por isso está em análise. Ficou conhecida a história de um paciente que após um bom tempo diz a "seu analista" que está chegando ao fim de seu trabalho. Este lhe responde: - "Engano seu, penso que o senhor está prestes a começar". Entrar em análise é mudar de posição subjetiva: a pessoa para de referir suas queixas às cenas atuais de seu cotidiano e passa a se entender em uma "Outra Cena", como dizia Freud. Isso é difícil de conseguir, pois a realidade sempre alivia o comprometimento de cada um em seu mal-estar, razão pela qual muitas pessoas adoram viver um inferno de vida. Se quisermos traduzir em conceito, entrar em análise é sair de uma moral dos costumes e se instalar na ética do desejo.
Segundo, há que se conhecer a diferença entre Psicanálise e o mar de psicoterapias que são oferecidas. Se até para o profissional, nem sempre é clara, imagine para o leigo. O termo "Psicanálise" adquiriu certo valor de mercado e acaba sendo o cobertor genérico de corpos disciplinares muito diferentes, o mais das vezes, opostos. Em síntese, praticamente todas as psicoterapias seguem o modelo da ética médica: um se queixa, o outro trata; um não sabe, o outro sabe; um é paciente, o outro é atuante. Arrisquemos uma definição: no fundamento do que se chama Psicanálise está sempre - sim - sempre responsabilizar o sofredor em seu sofrimento. Não culpar, atenção, responsabilizar e de uma responsabilidade muito diferente da responsabilidade jurídica, que se baseia na consciência dos fatos. Seria até engraçado que a prática do inconsciente exigisse a responsabilidade consciente. A responsabilidade em Psicanálise, contrariamente à jurídica, é a responsabilidade frente ao acaso e à surpresa. Não dá para ninguém se safar de uma situação dizendo: - "Ah, só se foi o meu inconsciente", como se ele fosse 'um moleque irresponsável que não tem nada a ver comigo'. A Psicanálise se define por sua ética, como queria Lacan, e a ética da Psicanálise é o avesso da ética médica, por conseguinte, das psicoterapias. Isso não quer dizer que uma coisa seja melhor que a outra, mas que é fundamental reconhecer as diferenças para que haja uma colaboração efetiva entre os campos clínicos e não mútuo borrão, como soe acontecer.
Terceiro, finalmente, fazer análise hoje é igual aos tempos de Freud? Sim e não. Sim, no que tange ao fundamento do inconsciente; não, na diferença de sua expressão. Desde Freud até muito recentemente, digamos há uns trinta anos, fazer análise era se conhecer melhor e, por isso, agir de maneira menos infestada de comprometimentos psicopatológicos. O se "conhecer melhor" se obtinha na análise do Complexo de Édipo, matriz da significação do comportamento humano, verdadeiro software genial que Freud invene - tou para entender como uma pessoa pode operar o hardware mundo, que não lhe é em nada natural. Por quase cem anos acreditamos que o mundo era edípico, e era mesmo, se edípico é um mundo que institui um padrão de significação vertical e superior, no caso, o Pai. O paciente de ontem, por viver em um mundo padronizado, sabia onde queria chegar e se perguntava sobre o que lhe amarrava a sua vida, daí o foco no passado. Entramos, agora, em uma nova configuração do laço social: a globalização privilegia a horizontalidade sobre a verticalidade constituindo uma sociedade em rede, muito distinta da piramidal da qual nos afastamos no bonde da História. Se hoje o Édipo ainda funciona, sua abrangência de leitura do fenômeno humano é mais restrita e, em decorrência, uma clínica nele centrado também o é. Necessitamos de uma clínica além do Édipo. O paciente de hoje, mais que do passado, quer saber do seu futuro. Ele não se pergunta o que o impede de chegar a um objetivo, pois o problema, quando se quebram os padrões, é saber qual é o seu objetivo entre as inúmeras possibilidades, fato que o angustia. Paradoxalmente, uma análise vai lhe mostrar que há um limite ao conhecimento e que fazer uma análise não é conhecer mais, mas se defrontar com o impossível de tudo saber, frente ao qual só resta uma possibilidade: a de inventar uma solução e a de publicá-la, suportando o risco de seu desejo. Uma análise hoje, pós-edípica, deverá ser capaz de transformar a angústia imobilizadora em criativa; a rigidez em flexibilidade; a moral da necessidade em ética do desejo.
(artigo publicado na Revista Psique - número 51)
Você está em análise? Etâ perguntinha difícil de responder; vejamos. Primeiro, não basta você dizer que vai a um psicanalista bem titulado, tantas vezes por semana. O carteiro do analista também vai lá com frequência e nem por isso está em análise. Ficou conhecida a história de um paciente que após um bom tempo diz a "seu analista" que está chegando ao fim de seu trabalho. Este lhe responde: - "Engano seu, penso que o senhor está prestes a começar". Entrar em análise é mudar de posição subjetiva: a pessoa para de referir suas queixas às cenas atuais de seu cotidiano e passa a se entender em uma "Outra Cena", como dizia Freud. Isso é difícil de conseguir, pois a realidade sempre alivia o comprometimento de cada um em seu mal-estar, razão pela qual muitas pessoas adoram viver um inferno de vida. Se quisermos traduzir em conceito, entrar em análise é sair de uma moral dos costumes e se instalar na ética do desejo.
Segundo, há que se conhecer a diferença entre Psicanálise e o mar de psicoterapias que são oferecidas. Se até para o profissional, nem sempre é clara, imagine para o leigo. O termo "Psicanálise" adquiriu certo valor de mercado e acaba sendo o cobertor genérico de corpos disciplinares muito diferentes, o mais das vezes, opostos. Em síntese, praticamente todas as psicoterapias seguem o modelo da ética médica: um se queixa, o outro trata; um não sabe, o outro sabe; um é paciente, o outro é atuante. Arrisquemos uma definição: no fundamento do que se chama Psicanálise está sempre - sim - sempre responsabilizar o sofredor em seu sofrimento. Não culpar, atenção, responsabilizar e de uma responsabilidade muito diferente da responsabilidade jurídica, que se baseia na consciência dos fatos. Seria até engraçado que a prática do inconsciente exigisse a responsabilidade consciente. A responsabilidade em Psicanálise, contrariamente à jurídica, é a responsabilidade frente ao acaso e à surpresa. Não dá para ninguém se safar de uma situação dizendo: - "Ah, só se foi o meu inconsciente", como se ele fosse 'um moleque irresponsável que não tem nada a ver comigo'. A Psicanálise se define por sua ética, como queria Lacan, e a ética da Psicanálise é o avesso da ética médica, por conseguinte, das psicoterapias. Isso não quer dizer que uma coisa seja melhor que a outra, mas que é fundamental reconhecer as diferenças para que haja uma colaboração efetiva entre os campos clínicos e não mútuo borrão, como soe acontecer.
Terceiro, finalmente, fazer análise hoje é igual aos tempos de Freud? Sim e não. Sim, no que tange ao fundamento do inconsciente; não, na diferença de sua expressão. Desde Freud até muito recentemente, digamos há uns trinta anos, fazer análise era se conhecer melhor e, por isso, agir de maneira menos infestada de comprometimentos psicopatológicos. O se "conhecer melhor" se obtinha na análise do Complexo de Édipo, matriz da significação do comportamento humano, verdadeiro software genial que Freud invene - tou para entender como uma pessoa pode operar o hardware mundo, que não lhe é em nada natural. Por quase cem anos acreditamos que o mundo era edípico, e era mesmo, se edípico é um mundo que institui um padrão de significação vertical e superior, no caso, o Pai. O paciente de ontem, por viver em um mundo padronizado, sabia onde queria chegar e se perguntava sobre o que lhe amarrava a sua vida, daí o foco no passado. Entramos, agora, em uma nova configuração do laço social: a globalização privilegia a horizontalidade sobre a verticalidade constituindo uma sociedade em rede, muito distinta da piramidal da qual nos afastamos no bonde da História. Se hoje o Édipo ainda funciona, sua abrangência de leitura do fenômeno humano é mais restrita e, em decorrência, uma clínica nele centrado também o é. Necessitamos de uma clínica além do Édipo. O paciente de hoje, mais que do passado, quer saber do seu futuro. Ele não se pergunta o que o impede de chegar a um objetivo, pois o problema, quando se quebram os padrões, é saber qual é o seu objetivo entre as inúmeras possibilidades, fato que o angustia. Paradoxalmente, uma análise vai lhe mostrar que há um limite ao conhecimento e que fazer uma análise não é conhecer mais, mas se defrontar com o impossível de tudo saber, frente ao qual só resta uma possibilidade: a de inventar uma solução e a de publicá-la, suportando o risco de seu desejo. Uma análise hoje, pós-edípica, deverá ser capaz de transformar a angústia imobilizadora em criativa; a rigidez em flexibilidade; a moral da necessidade em ética do desejo.
(artigo publicado na Revista Psique - número 51)
O EXERCICIO DA PSICANÁLISE

O Exercício da Profissão:
A Psicanálise segue critérios bastante rígidos. No Brasil, seu exercício se dá de acordo com o artigo 5°, Incisos II e XIII da Constituição Federal. Acrescenta-se ainda o Parecer 4.048/97 de 11/02/98. Parecer 309/88 da Coordenadoria de Identificação Profissional do Ministério Público Federal e da Procuradoria da República, do Distrito Federal e Aviso n°257/57 de 06/06/1957, do Ministério da Saúde, este último como marco histórico.E o CBO (Classificação Brasileira de Ocupações)sob nº 2515/50 - Psicanalista- Analista (psicoterapia psicanalitica)
Descrição Sumária
"Estudam, pesquisam e avaliam o desenvolvimento emocional e os processos mentais e sociais de indivíduos, grupos e instituições, com a finalidade de análise, tratamento, orientação e educação; diagnosticam e avaliam distúrbios emocionais e mentais e de adaptação social, elucidando conflitos e questões e acompanhando o(s) paciente(s) durante o processo de tratamento ou cura; investigam os fatores inconscientes do comportamento individual e grupal, tornando-os conscientes; desenvolvem pesquisas experimentais, teóricas e clínicas e coordenam equipes e atividades de área e afins." (CBO/2515 de 1982 e 2002)
Visitem a pagina http://www.mtecbo.gov.br/cbosite/pages/pesquisas/ResultadoFamiliaCompetencias.jsf
para melhores informções. OU www.mtecbo.gov.br
quinta-feira, 27 de maio de 2010
Sangrando - Luiz Gonzaga Junior
Sangrando
Composição: Gonzaguinha
Interpretada " lindamente" por Ivo Pesssoa
Quando eu soltar a minha voz
Por favor entenda
Que palavra por palavra
Eis aqui uma pessoa se entregando
Coração na boca
Peito aberto
Vou sangrando
São as lutas dessa nossa vida
Que eu estou cantando
Quando eu abrir minha garganta
Essa força tanta
Tudo que você ouvir
Esteja certa
Que estarei vivendo
Veja o brilho dos meus olhos
E o tremor nas minhas mãos
E o meu corpo tão suado
Transbordando toda a raça e emoção
E se eu chorar
E o sal molhar o meu sorriso
Não se espante, cante
Que o teu canto é a minha força
Pra cantar
Quando eu soltar a minha voz
Por favor, entenda
É apenas o meu jeito de viver
O que é amar
Composição: Gonzaguinha
Interpretada " lindamente" por Ivo Pesssoa
Quando eu soltar a minha voz
Por favor entenda
Que palavra por palavra
Eis aqui uma pessoa se entregando
Coração na boca
Peito aberto
Vou sangrando
São as lutas dessa nossa vida
Que eu estou cantando
Quando eu abrir minha garganta
Essa força tanta
Tudo que você ouvir
Esteja certa
Que estarei vivendo
Veja o brilho dos meus olhos
E o tremor nas minhas mãos
E o meu corpo tão suado
Transbordando toda a raça e emoção
E se eu chorar
E o sal molhar o meu sorriso
Não se espante, cante
Que o teu canto é a minha força
Pra cantar
Quando eu soltar a minha voz
Por favor, entenda
É apenas o meu jeito de viver
O que é amar
domingo, 23 de maio de 2010
Contos de fadas

Artigo: Os adultos merecem ouvir contos de fadas
Os adultos merecem ouvir contos de fadas
Por Rossane Lemos*
Os Irmãos Grimm se dedicaram a registrar os contos da forma mais pura possível, recém-saída da boca do povo, em uma linguagem que se assemelha ao vocabulário das crianças. Os editores do livro Kinder – und HausMärchen[1] destacam que os autores:
Se afastaram da tendência de seus contemporâneos, de transformar os contos numa representação (Spiel), na qual se desencadeia um individualismo romântico: eles permanecem fiéis ao ritmo escutado, que perceberam na boca dos falantes do povo. Por isso os contos de Grimm têm este tom, da maior intimidade popular; por isso eles (os contos) têm o infantil dentro de si e se deixam contar com tanta naturalidade para as crianças. (GRIMM, vol. II, p. 589)
Entretanto, as histórias se deixam contar não apenas para as crianças. As histórias, os contos maravilhosos, de fadas, da carochinha entre tantos fazem parte da vida da maioria das pessoas: crianças ou adultos; que podem sonhar e entrar na magia dos contos de fadas embalados pela voz doce de alguém que acredita no poder da palavra.
Hans Cristian Andersen falou com as crianças com o coração. Os textos traduziam o sofrimento principalmente destas e reequilibravam as injustiças sociais na esfera do maravilhoso. Mas porque apenas as crianças precisam de palavras cuja essência fale ao coração? Quantos adultos sentem-se tal qual “O patinho feio”, “O soldadinho de chumbo”, “A pequena sereia”?
Com o avanço do racionalismo cientificista e tecnológico, os contos de fadas e as narrativas maravilhosas passam a ser vistos como ‘histórias para crianças’. Há um novo maravilhoso a atrair os homens: aquele que eles descobrem não só no próprio real (transformado pela máquina), mas também em si mesmos, ou melhor, no poder da inteligência humana. (COELHO, 2000, p. 119)
Alguns desatentos projetam a ação dos contos na produção de efeitos somente para as crianças, destacando uma face dedicada ao aspecto lúdico da fantasia. Entretanto, ao observar estas narrativas com maior profundidade, pode-se ampliar as possibilidades para uma ação efetiva em todos os públicos. As crianças têm naturalmente um impulso espontâneo que facilita a recepção das histórias por conta de serem menos moldadas pela sociedade materialista – são elas que conseguem aceitar facilmente o aspecto maravilhoso dos contos. Costa (2006, p. 94) refuta a ideia de que histórias são para crianças apenas:
Há, contudo, uma omissão imperdoável nessa crença de que apenas as crianças gostam e devem ouvir histórias. Os adultos recebem com igual prazer, encantamento e curiosidade as histórias adequadas à sua visão de mundo e à sua experiência de vida. Nesse sentido, contar histórias é também um ato de congraçamento, que irmana o público, conquistado pelo desempenho do contador e pela força do texto escolhido.
Bruno Bettelheim afirma que os contos de fadas ajudam a criança na difícil tarefa de encontrar um sentido à vida, e os adultos também. Para o autor “nada é tão enriquecedor e satisfatório para a criança, como para o adulto, do que o conto de fadas folclórico. [...] através deles pode-se aprender mais sobre os problemas interiores dos seres humanos”. (1997, p. 13)
Joseph Campbell (2008) acredita que a mitologia desempenha várias funções, sendo que uma delas é, ao mesmo tempo, psicológica e pedagógica. Para ele, o mito precisa ser o companheiro do ser humano em todas as fases da vida, por exemplo, como instrutor das crianças e como preparador para a morte dos idosos.
Em entrevista ao jornal O Globo, do Rio de Janeiro, Couto enfatiza o valor de ouvir histórias e confirma que estas não são somente para crianças:
Uma certa racionalidade nos fez envergonhar deste apetite, atirando as histórias para o domínio da infantilidade. Essa estigmatização da pequena história está presente também na literatura: veja-se a forma como se secundariza o conto em Uma certa racionalidade nos fez envergonhar deste apetite, atirando as histórias para o domínio da infantilidade. Essa estigmatização da pequena história está presente também na literatura: veja-se a forma como se secundariza o conto em relação ao romance. O advento e a hegemonia da escrita são também responsáveis por essa marginalização da oralidade. (p. 6)
Não é possível apontar ao certo – a sociedade ou o próprio ser humano – o responsável por esse rompimento que rouba dos adultos esta experiência imaginativa e lúdica. Os adultos são levados a abrir mão dos sonhos, atrelando suas vidas na rudeza da rotina e deixando de viver uma essência que, ainda assim, não os abandona. Tornar-se adulto perece ser o reconhecimento de que algumas coisas são impossíveis. Neste sentido “o conto pode manter viva essa chama de familiaridade com o desconhecido, porque lá as experiências inexplicáveis fazem sentido” (MACHADO, 2004, p. 28).
Referências:
BETTELHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fadas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997.
CAMPBELL, Joseph. Mito e transformação. São Paulo: Ágora, 2008.
COELHO, Nelly Novaes. Literatura Infantil. São Paulo: Moderna, 2000.
COSTA, Marta Morais da. Mapa do mundo: crônicas de aprendiz. Belo Horizonte: Leitura, 2006.
COUTO, Mia. O Globo, Rio de Janeiro, 30 jun. 2007. Caderno Prosa & Verso.
GRIMM, die Brüder. Kinder – und HausMärchen. Manesse Verlag. Zürich: Conzett & Huber, s/d. 2 vols.
MACHADO, Regina. Acordais – fundamentos teórico-práticos da arte de contar histórias. São Paulo: DCL, 2004.
ENTENDIMENTO

Entendimento
Mas de vez em quando vinha a inquietação insuportável: queria entender o bastante para pelo menos ter mais consciência daquilo que ela não entendia. Embora no fundo não quisesse compreender. Sabia que aquilo era impossível e todas as vezes que pensara que se compreendera era por ter compreendido errado. Compreender era sempre um erro - preferia a largueza tão ampla e livre e sem erros que era não-entender. Era ruim, mas pelo menos se sabia que se estava em plena condição humana.
Clarice Lispector, in 'Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres'
terça-feira, 18 de maio de 2010
Estudo Psicanalítico sobre a Neurose Obsessiva Compulsiva

Estudo Psicanalítico sobre a Neurose Obsessiva Compulsiva
(Texto Original escrito em 2002 - Prof. Marcos Oliveira)
Dentre as diversas e complexas manifestações neuróticas, sem dúvida nenhuma a que nominamos de neurose obsessiva compulsiva, afigura-se como a mais interessante e rica em conteúdos simbólicos. Porém, ao falarmos de “Conteúdos Simbólicos”, talvez o termo seja muito fraco para expressar o que de fato ocorre no núcleo dessa neurose, pois não estamos falando de uma montagem simbólica comum, o indivíduo afetado por tal desequilíbrio, age como se o símbolo fosse a “realidade”, e não uma mera representação da mesma.
Modernamente a neurose obsessiva compulsiva é denominada pela psiquiatria pelo Termo Técnico: Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC).
Porém, o enfoque psiquiátrico moderno diverge da abordagem psicanalítica tanto na etiologia de tal neurose como no seu tratamento.
Nesse estudo, no entanto, não iremos tratar das “diferenças”, e sim das similitudes e complementações que ambas podem oferecer no tratamento dessa incômoda e persistente neurose.
Em minha experiência profissional, bem como na pesquisa da Literatura Psicanalítica, pude observar e alistar particularidades normativas que sempre estão presentes no comportamento neurótico compulsivo obsessivo.
O neurótico tem consciência da absurdidade de alguns de seus pensamentos, por isso, uma dolorosa dissociação se estabelece no ego, e a pessoa afetada fica atormentada pelas repetições ideativas.
Frente a esse fato, podemos definir as obsessões ideativas, como intensificações de pensamento ego-distônicos, recursivos e intrusivos, que leva o paciente a ser “pensado” pelos seus muitos pensamentos, gerando uma ansiedade atormentadora.
Objetivando aliviar a ansiedade causada pelas obsessões, o neurótico recorre a ações ritualizadas, essas por sua vez são chamadas de “Compulsões”.
Os atos compulsivos mais comuns, podem ser reduzidos a cinco categorias primárias: rituais envolvendo a verificação; rituais envolvendo a limpeza; pensamentos obsessivos sem compulsões; lentidão obsessiva e rituais mistos.
No tratamento analítico, o terapeuta não deve se apressar em acabar com o “sintoma”, pois como gratificação secundária, os sintomas obsessivos compulsivos podem estar impedindo uma desintegração psicótica no neurótico, o doente se agarra a seus “sintomas estranhos” para garantir seu equilíbrio egóico.
O analista deve estar interessado em descobrir a função inconsciente do sintoma, e a sua configuração compensatória no mundo intrapsíquico do afetado, desvendando pouco a pouco, em sua psicobiografia, como foi levado a montar reativamente certo tipo de sintoma.
Esse processo lento e gradativo mostra-se fundamental para a compreensão da organização simbólica do paciente, possibilitando a perlaboração dos conteúdos analisados, eliminando não só os sintomas, mas sim o núcleo de ansiedade básica atrás do fenômeno.
O Comportamento Obsessivo Compulsivo
Descreverei agora, alguns dos sintomas que aparecem com mais freqüência nessa neurose: lavar as mãos demoradamente inúmeras vezes durante o dia (alguns pacientes são levados a levantar-se durante a noite para fazê-lo); tomar longos e repetidos banhos por não se sentir limpo; passar a maior parte do tempo limpando as coisas; preocupar-se fanaticamente com germes e contaminações; verificar repetidamente se portas e janelas foram fechadas; dar valor excessivo a números ou a contagens (é como se quisessem ficar livres do tempo, porém, estranhamente, é a sua cronometragem que os prendem); pensamentos catastróficos (algo de ruim que pode acontecer a qualquer momento); simetria neurótica; pensamentos ligados a castigo e morte, etc...
De forma coerciva, essas pessoas são vítimas de suas compulsões; mesmo que racionalmente não queiram praticar suas “esquisitices”, são devastadas por uma enorme ansiedade que, por fim, as leva a ceder ao ritual neurótico.
Uma outra peculiaridade marcante é a busca pela perfeição, tanto intrapsiquicamente como extra psiquicamente. Sua exigência maior é encontrar aquilo que é perfeito, mesmo que racionalmente admita que tal exigência é absurda e frustrante.
O desequilíbrio gera uma acentuada ambivalência relacional, são capazes de ruminar interminavelmente uma pequena atitude, desgastando e fadigando qualquer pessoa de seu convívio.
Por causa do conflito interno, tudo que fazem requer muito esforço, podem criar uma “tempestade num copo d’água” na realização de qualquer atividade corriqueira, por mais simples que pareça.
Os pensamentos intrusivos se avolumam de tal forma na mente neurotizada, que é muito comum ficarem presos por uma cadeia interminável de pensamentos, que por vezes paralisam totalmente ações práticas, fazendo com que a “dúvida” seja a regra geral do comportamento compulsivo obsessivo. São fracos em tomar decisões, não sabendo como agir frente a escolhas banais do cotidiano.
Embora tudo isso se suceda ao neurótico obsessivo compulsivo, muitos deles conseguem levar uma vida como qualquer outro, são normalmente inteligentes e, portanto, capazes plenamente de estudar e trabalhar.
Sua capacidade psíquica não é totalmente prejudicada, e por terem consciência de seus “atos estranhos”, conseguem disfarçá-los no ambiente social.
É notório que as compulsões são exageradas quando a pessoa encontra-se em casa, por isso, ao mesmo tempo em que sua casa é um símbolo de proteção uterina, é também o palco de suas maiores angústias e fraquezas neuróticas.
Para que o processo analítico tenha bom êxito, o terapeuta precisa perceber em profundidade em que a dinâmica familiar influencia o paciente, pois muitas vezes o sintoma obsessivo é fomentado por uma organização familiar neurótica.
Quase sempre, para que o paciente tenha uma melhora significativa, o ambiente familiar deve ser readaptado às novas exigências do processo, sendo um meio facilitador e não um obstáculo intransponível.
Texto na integra www.sbph.com.br
ENTREVISTA COM FREUD

Eis uma das preciosidades encontradas na biblioteca da Sociedade Sigmund Freud: a entrevista concedida ao jornalista americano George Sylvester Viereck, em 1926.
Deve ter sido publicada na imprensa americana da época. Acreditava-se que estivesse perdida, quando o Boletim da Sigmund Freud Haus publicou uma versão condensada, em 1976.
Na verdade, o texto integral havia sido publicado no volume Psychoanalysis and the Future, número especial do "Journal of Psychology", de Nova Iorque, em 1957.
O link para a entrevista completa, em tradução de Paulo César Souza, vai no final.
Reproduzo, aqui, alguns trechos.
S. Freud: Setenta anos ensinaram-me a aceitar a vida com serena humildade.
(Quem fala é o professor Sigmund Freud, o grande explorador da alma. O cenário da nossa conversa foi uma casa de verão no Semmering, uma montanha nos Alpes austríacos. Eu havia visto o pai da psicanálise pela última vez em sua casa modesta na capital austríaca. Os poucos anos entre minha última visita e a atual multiplicaram as rugas na sua fronte. Intensificaram a sua palidez de sábio. Sua face estava tensa, como se sentisse dor. Sua mente estava alerta, seu espírito firme, sua cortesia impecável como sempre, mas um ligeiro impedimento da fala me perturbou. Parece que um tumor maligno no maxilar superior necessitou ser operado. Desde então Freud usa uma prótese, para ele uma causa de constante irritação).
S. Freud: Detesto o meu maxilar mecânico, porque a luta com o aparelho me consome tanta energia preciosa. Mas prefiro ele a maxilar nenhum. Ainda prefiro a existência à extinção. Talvez os deuses sejam gentis conosco, tornando a vida mais desagradável à medida que envelhecemos. Por fim, a morte nos parece menos intolerável do que os fardos que carregamos.
...
George Sylvester Viereck: Gostaria de retornar em alguma forma, de ser resgatado do pó? O senhor não tem, em outras palavras, desejo de imortalidade?
S. Freud: Sinceramente não. Se a gente reconhece os motivos egoístas por trás de conduta humana, não tem o mínimo desejo de voltar à vida; movendo-se num círculo, seria ainda a mesma. Além disso, mesmo se o eterno retorno das coisas, para usar a expressão de Nietzsche, nos dotasse novamente do nosso invólucro carnal, para que serviria, sem memória? Não haveria elo entre passado e futuro. Pelo que me toca, estou perfeitamente satisfeito em saber que o eterno aborrecimento de viver finalmente passará. Nossa vida é necessariamente uma série de compromissos, uma luta interminável entre o ego e seu ambiente. O desejo de prolongar a vida excessivamente me parece absurdo.
...
George Sylvester Viereck: O senhor já analisou a si mesmo?
S. Freud: Certamente. O psicanalista deve constantemente analisar a si mesmo. Analisando a nós mesmos, ficamos mais capacitados a analisar os outros. O psicanalista é como o bode expiatório dos hebreus. Os outros descarregam seus pecados sobre ele. Ele deve praticar sua arte à perfeição para desvencilhar-se do fardo jogado sobre ele.
...
George Sylvester Viereck: Ás vezes imagino se não seríamos mais felizes se soubéssemos menos dos processos que dão forma a nossos pensamentos e emoções. A psicanálise rouba a vida do seu último encanto, ao relacionar cada sentimento ao seu original grupo de complexos. Não nos tornamos mais alegres descobrindo que nós todos abrigamos o criminoso e o animal.
S. Freud: Que objeção pode haver contra os animais? Eu prefiro a companhia dos animais à companhia humana.
George Sylvester Viereck: Por quê?
S. Freud: Porque são tão mais simples. Não sofrem de uma personalidade dividida, da desintegração do ego, que resulta da tentativa do homem de adaptar-se a padrões de civilização demasiado elevados para o seu mecanismo intelectual e psíquico. O selvagem, como o animal, é cruel, mas não tem a maldade do homem civilizado. A maldade é a vingança do homem contra a sociedade, pelas restrições que ela impõe. As mais desagradáveis características do homem são geradas por esse ajustamento precário a uma civilização complicada. É o resultado do conflito entre nossos instintos e nossa cultura. Muito mais agradáveis são as emoções simples e diretas de um cão, ao balançar a cauda, ou ao latir expressando seu desprazer. As emoções do cão (acrescentou Freud pensativamente) lembram-nos os heróis da Antigüidade. Talvez seja essa a razão por que inconscientemente damos aos nossos cães nomes de heróis antigos como Aquiles e Heitor.
...
George Sylvester Viereck: A psicanálise torna a vida um quebra-cabeças complicado.
S. Freud: De maneira alguma. A psicanálise torna a vida mais simples. Adquirimos uma nova síntese depois da análise. A psicanálise reordena um emaranhado de impulsos dispersos, procura enrolá-los em torno do seu carretel. Ou, modificando a metáfora, ela fornece o fio que conduz a pessoa fora do labirinto do seu inconsciente.
...
George Sylvester Viereck: O senhor ainda coloca a ênfase sobretudo no sexo?
S. Freud: Respondo com as palavras do seu próprio poeta, Walt Whitman: "Mas tudo faltaria, se faltasse o sexo" ("Yet all were lacking, if sex were lacking"). Entretanto, já lhe expliquei que agora coloco ênfase quase igual naquilo que está "além" do prazer - a morte, a negociação da vida. Este desejo explica por que alguns homens amam a dor - como um passo para o aniquilamento! Explica por que os poetas agradecem a
Whatever gods there be, That no life lives forever And even the weariest river Winds somewhere safe to sea. ("Quaisquer deuses que existam/ Que a vida nenhuma viva para sempre/ Que os mortos jamais se levantem**/ E também o rio mais cansado/ Deságüe tranqüilo no mar".)
...
(Acompanhado da esposa e da filha, Freud desceu os degraus que levavam do seu refúgio na montanha à rua, para me ver partir. Ele me pareceu cansado e triste, ao dar o seu adeus).
S. Freud: Não me faça parecer um pessimista (disse ele após o aperto de mão). Eu não tenho desprezo pelo mundo. Expressar desdém pelo mundo é apenas outra forma de cortejá-lo, de ganhar audiência e aplauso. Não, eu não sou um pessimista, não, enquanto tiver meus filhos, minha mulher e minhas flores! Não sou infeliz - ao menos não mais infeliz que os outros.
(O apito de meu trem soou na noite. O automóvel me conduzia rapidamente para a estação. Aos poucos o vulto ligeiramente curvado e a cabeça grisalha de Sigmund Freud desapareceram na distância).
terça-feira, 11 de maio de 2010
A IMPORTÂNCIA DA PSICANÁLISE NA EDUCAÇÃO

Davy Litman Bogomoletz -
Psicanalista do Círculo Psicanalítico do Rio de Janeiro-Tradutor para a Imago Editora dos títulos:
Natureza Humana ´por D.W.Winnicott –
O Filho Ilegítimo por Gérard Haddad
Freud - Um Judeu sem Deus por Peter Gay
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Na Europa e na América do Norte, os conhecimentos derivados da psicanálise vêm sendo usada na educação, por exemplo, já há um bom tempo, e ela não é tão rechaçada quanto aqui
Davy, por que a psicanálise para quem lida com educação? Não é um tratamento, voltado para as doenças, pouco tendo a ver com o que se passa entre professores e alunos?
Eu poderia dizer que não é bem assim. Posso fazer uma analogia com a medicina. Sabemos que ‘medicina’ significa uma série de técnicas capazes de lutar contra um grande número de doenças. Mas em que se baseia a medicina? Principalmente em dois conjuntos de conhecimentos, um chamado anatomia, e o outro, fisiologia. Por um lado, a anatomia é fundamental não só para a cura de doenças, mas também para a educação física, a reabilitação, o esporte, a fisioterapia, etc. Não sei que usos tem a fisiologia fora da medicina, mas creio que a nutrição tem nela uma base fundamental para poder funcionar. Assim, nem só de doenças vive o conhecimento sobre o corpo humano.
A psicanálise é constituída de duas partes: As teorias sobre o funcionamento humano em termos psicológicos, e as técnicas de tratamento. Da mesma forma que a anatomia e a fisiologia, conhecimentos fundamentais, dão uma base sólida a todas aquelas especialidades acima mencionadas, o conhecimento psicanalítico também fornece fundamentos para uma série de atividades, tais como a educação, a psicologia (individual e social), agora a psicopedagogia, etc.
Por que, então, tanta dificuldade para a aceitação da psicanálise em situações não patológicas?
O problema é que numa sociedade fechada como era a nossa até poucas décadas atrás, o conhecimento do que se passa nos bastidores da consciência era tido como perigoso, porque quanto mais fechada a sociedade, maior o teor de preconceitos usados contra o outro e de disfarces para melhorar a própria imagem, e a psicanálise questiona tudo isso. Na Europa e na América do Norte, os conhecimentos derivados da psicanálise vêm sendo usada na educação, por exemplo, já há um bom tempo, e ela não é tão rechaçada quanto aqui.
E por que Winnicott, e não outro teórico da psicanálise?
A resposta aqui é uma continuação da idéia anterior. É que Winnicott, sendo a terceira geração na história da teoria psicanalítica (as primeiras, óbvio, eram Freud e Melanie Klein), já encontrou muitos caminhos abertos, a teve como ir mais adiante. Até então a psicanálise lidava basicamente com doenças e técnicas de tratamento. Embora Freud dissesse, por exemplo, que o Complexo de Édipo era universal e funcionava como base para a personalidade, independente de doenças ou não, sua preocupação era principalmente com as patologias causadas por esse complexo. E Melanie Klein, embora usasse o brinquedo como técnica de tratamento, não parou para discutir o brincar em si mesmo, como manifestação normal da criança. Winnicott, além do mais, foi pediatra por 40 anos, além de psicanalista, e teve um contato muito prolongado com um número enorme de crianças que só estavam doentes fisicamente, e podiam ser consideradas psicologicamente saudáveis. Esse contato com as crianças que não tinham qualquer comprometimento psicológico o convenceu, creio eu, de que a psicanálise não podia restringir-se à compreensão da doença psíquica, precisava ir além e tentar entender o funcionamento da mente humana sem a interferência da doença. Atualmente há tentativas de aplicar também as teorias de Lacan, por exemplo, à situação da criança e da aprendizagem, mas não sou especialista em teoria lacaniana, de modo que não posso falar muito sobre isso.
A importancia da psicanalise na educãção- Continuação
...O que você vê como o ponto mais importante da abordagem de Winnicott para a questão da educação e da aprendizagem? Esse é um tema interessante. Eu poderia dizer, para ficar num único aspecto, que Winnicott percebeu uma coisa que outros psicanalistas não viram, e que é a espontaneidade e tudo aquilo que gira em torno dela ou de sua ausência. Que diferença há, por exemplo, entre um aluno que aprende bem porque é submisso e outro que aprende bem porque é espontâneo? Eu diria que a diferença está em que o aluno espontâneo talvez não tire notas tão boas quanto o submisso, mas terá muito mais curiosidade, terá muito mais idéias próprias, fará muito mais ligações entre as várias coisas aprendidas, e assim por diante. Conseqüência: ele usará bem melhor os conhecimentos adquiridos quando estiver fora da escola. Na minha opinião, essa diferença não era muito apreciada, até pouco tempo atrás. E então as escolas começaram a se preocupar com a espontaneidade e a não-submissão, mas acho que houve muita confusão nessa área, e muita gente meteu os pés pelas mãos tentando entortar para o lado de lá o que antes estava torto para o lado de cá. Winnicott discute tudo isso, mas a partir das próprias bases iniciais do desenvolvimento emocional da criança, e esse conhecimento a meu ver é fundamental para quem quer ter realmente uma boa noção de como funcionam crianças normais. (E também, obviamente, as que precisam de ajuda para chegar à normalidade ou ao menos perto dela.) E falo aqui de crianças porque elas são o “público alvo” disso que chamamos educação, não porque o que ele disse só é importante em termos de crianças.
Última pergunta: E essa questão do brincar, que importância tem para o processo da aprendizagem? Como eu disse antes, Winnicott deu grande importância ao fenômeno da espontaneidade. É como se até então a psicanálise considerasse que o indivíduo age a partir do esquema estímulo – resposta, e ele foi o primeiro a dar importância ao comportamento que na verdade não está respondendo a estímulo nenhum. Por isso ele fala da diferença entre agir e reagir, e o que sabemos é que muita gente – criança ou não – quase nunca consegue agir, em geral fica esperando que ocorra um estímulo para então reagir a ele. (Muita gente não sabe o que fazer nos fins de semana, por exemplo, ou num feriado. Fica perdida.) Winnicott percebeu que o indivíduo humano é naturalmente criativo desde o início, e que o bebê inventa brincadeiras espontaneamente. Disso todo o mundo sabe, é claro, mas até então ninguém percebeu o quanto isso era importante. Ora, justamente por isso essa espontaneidade poderia ser reprimida, impedida, e isso acontece muitas vezes desde muito cedo na vida do bebê. Quando esse desastre não acontece, a espontaneidade e a criatividade da criança naturalmente agem no sentido de fazer coisas, e de aplicar a fantasia (o “produto” da criatividade) aos movimentos e à manipulação de objetos – aquilo que chamamos de ‘brincar’. Com isso, a criança age sobre o mundo à sua volta, descobrindo coisas e inventando outras, pelo puro prazer de fazê-lo. Ela se sente agente, sujeito, ou outro nome que se dê a isso, e isto cria a capacidade de aprender como conquista, como exercício da própria vontade, o que é muito diferente de aprender como submissão à vontade do outro. E é justamente essa atividade – o brincar – que permite a esse processo de aprendizagem como conquista instalar-se e transformar-se na base de tudo aquilo que nós adultos chamamos de aquisição da cultura. O conhecimento, a cultura, portanto, do ponto de vista de Winnicott, podem ser algo de que a gente se apossa, ou algo que se apossa da gente. E qualquer pessoa (inclusive os professores) sente na própria pele a diferença entre essas duas possibilidades. É claro que não é possível a aprendizagem dentro da pura liberdade – não sei que fim levou, afinal, a famosa escola Summerhill, mas não parece ter feito tanto sucesso assim... Uma coisa, porém, é a liberdade apenas relativa, não total, e outra a ausência quase total de liberdade. É desse tipo de coisas que Winnicott fala, e a meu ver é até urgente que as pessoas voltadas para a educação e a aprendizagem prestem-lhe um pouco mais de atenção.
Última pergunta: E essa questão do brincar, que importância tem para o processo da aprendizagem? Como eu disse antes, Winnicott deu grande importância ao fenômeno da espontaneidade. É como se até então a psicanálise considerasse que o indivíduo age a partir do esquema estímulo – resposta, e ele foi o primeiro a dar importância ao comportamento que na verdade não está respondendo a estímulo nenhum. Por isso ele fala da diferença entre agir e reagir, e o que sabemos é que muita gente – criança ou não – quase nunca consegue agir, em geral fica esperando que ocorra um estímulo para então reagir a ele. (Muita gente não sabe o que fazer nos fins de semana, por exemplo, ou num feriado. Fica perdida.) Winnicott percebeu que o indivíduo humano é naturalmente criativo desde o início, e que o bebê inventa brincadeiras espontaneamente. Disso todo o mundo sabe, é claro, mas até então ninguém percebeu o quanto isso era importante. Ora, justamente por isso essa espontaneidade poderia ser reprimida, impedida, e isso acontece muitas vezes desde muito cedo na vida do bebê. Quando esse desastre não acontece, a espontaneidade e a criatividade da criança naturalmente agem no sentido de fazer coisas, e de aplicar a fantasia (o “produto” da criatividade) aos movimentos e à manipulação de objetos – aquilo que chamamos de ‘brincar’. Com isso, a criança age sobre o mundo à sua volta, descobrindo coisas e inventando outras, pelo puro prazer de fazê-lo. Ela se sente agente, sujeito, ou outro nome que se dê a isso, e isto cria a capacidade de aprender como conquista, como exercício da própria vontade, o que é muito diferente de aprender como submissão à vontade do outro. E é justamente essa atividade – o brincar – que permite a esse processo de aprendizagem como conquista instalar-se e transformar-se na base de tudo aquilo que nós adultos chamamos de aquisição da cultura. O conhecimento, a cultura, portanto, do ponto de vista de Winnicott, podem ser algo de que a gente se apossa, ou algo que se apossa da gente. E qualquer pessoa (inclusive os professores) sente na própria pele a diferença entre essas duas possibilidades. É claro que não é possível a aprendizagem dentro da pura liberdade – não sei que fim levou, afinal, a famosa escola Summerhill, mas não parece ter feito tanto sucesso assim... Uma coisa, porém, é a liberdade apenas relativa, não total, e outra a ausência quase total de liberdade. É desse tipo de coisas que Winnicott fala, e a meu ver é até urgente que as pessoas voltadas para a educação e a aprendizagem prestem-lhe um pouco mais de atenção.
terça-feira, 4 de maio de 2010
UNIVERSO INFANTIL
Universo Infantil
(Cristina Bernardes)
Para tentarmos entender melhor o universo infantil muitas vezes tentamos interpretar os seus desenhos; devemos lembrar-nos que a interpretação de um desenho isolada do contexto em que foi elaborado não faz sentido.
Entre um e três anos
É a idade das famosas garatujas: simples riscos ainda desprovidos de controlo motor, a criança ignora os limites do papel e mexa todo o corpo para desenhar, avançando os traçados pelas paredes e chão. As primeiras garatujas são linhas longitudinais que, com o tempo, vão se tornando circulares e, por fim, se fecham em formas independentes, que ficam soltas na página.
Entre três e quatro anos
Entre quatro e cinco anos
É uma fase de temas clássicos do desenho infantil, como paisagens, casinhas, flores, super-heróis, veículos e animais, variando no uso das cores e buscando um certo realismo.
Entre cinco e seis anos
Quanto ao espaço, é o primeiro conceito definido de espaço: linha de base. Já tem um conceito definido quanto a figura humana, porém aparecem desvios do esquema como: exagero, negligência, omissão ou mudança de símbolo. Aqui existe a descoberta das relações quanto a cor; cor-objeto, podendo haver um desvio do esquema de cor expressa por experiência emocional.
Entre sete e oito anos
Existe uma consciência maior do sexo e autocrítica pronunciada. No espaço é descoberto o plano e a superposição. Abandona a linha de base. Na figura humana aparece o abandono das linhas. As formas geométricas aparecem. Maior rigidez e formalismo.
Os Sujeitos sao devedores da FALTA

Lacan foi o grande pensador da psicanálise francesa do século XX. A partir de alguns novos instrumentos dos pensares contemporâneos (Antropologia, Lingüística, Topologia e, indiscutivelmente, as filosofias de Hegel, Kojève e Heidegger), ele elaborou uma série de densas questões para a psicanálise, com o mote "retorno a Freud". Para Lacan, o psiquismo inconsciente se estrutura como linguagem. A Linguagem se estabelece à moda de Saussure, ou seja, como conjunto de significantes e significados, de modo uno e indivisível, pois determinados em união (reunião diria Heidegger, Versammlung). Os significantes são letras indivisíveis e suas diferenças se marcam por sua inscrição numa cadeia unitária (de significantes), único lugar no qual se distinguem. Assim sendo, é preciso que o significante (pois se trata de UM) se destitua de suas características sensíveis, pois ele só existe a partir do Outro da linguagem e só se relaciona com outros significantes.
O que organiza tal Outro é um centro, que contém ou deveria conter sua Verdade Única. Lacan postula que tal centro é A Falta e que os indivíduos só se constituem como sujeitos a partir de sua determinação. Ou seja, o sujeito está remetido ao centro mas ele não o tem; os sujeitos são devedores permanentes da Falta (a ela assujeitados) que os constitui.
Quanto às representações e idéias, as que não se reconhecem em tal centramento simbólico constituído pela Falta, são imaginárias. Ser simbolicamente é saber (e por aí temos grave questão: como seria tal saber inconsciente?) de sua constituição ec-cêntrica, pois a cadeia dos significantes insiste sobre sua própria organização. Ao mesmo tempo, sendo a Linguagem e sendo por ela pensado, o Simbólico reconhece a Falta que constitui as subjetividades, mas que lhes é exterior: tal seria a Lei de O Desejo.
Portanto, a letra só pode ter caráter unitário, e sua Lei ordenadora é o retorno à cadeia dos significantes, único lugar no qual ela faz sentido. O sujeito depende da letra, que é seu "elementar". Para Lacan, a letra sempre chega à sua destinação, porque os significantes têm uma Lei única (e, consequentemente, uma única memória, a posteriori, nachträglich) de sua constituição. Na obra lacaniana, a letra retorna sempre e tem um único destino, determinado pela cadeia significante.
É claro que um criador como Lacan não é dogmático. Ao longo de seu pensar vamos aprendendo acontecimentos desejantes que não se determinam unicamente pelo significante. Num exemplo importante, a noção de gozo, que diz respeito à Unheimlichkeit, ao não-familiar/familiar, doméstico/indomesticado, aí onde o sujeito não mais se remete ao Outro que o constitui desejantemente, mas imediatamente à coisa faltante (das Ding). Nesta extimidade (Lacan) se reúnem o mais estranho e ao mesmo tempo o mais íntimo; onde a cadeia significante não dá mais conta da subjetividade e vigora o mais elevado gozo. No gozo, há uma insistência de recusa do Nome do Pai, que é o que articula a cadeia significante e O Desejo.
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